o pirmeiro romance de patrício jr.

Atenção: este livro é contra-indicado para pessoas que vivem num estágio confortável de felicidade apática. Sim. Totalmente contra-indicado. Você não vai querer ser perturbado de seu cômodo estado letárgico, vai? Se vai, enfim, é por opção própria. Você tem a escolha de não conhecer os dois protagonistas desse romance amargo. Livre arbítrio. Se escolher pelo sim, vai conhecer um homem ácido, multiviciado, perdido. Um homem que não acredita no dia de amanhã. E vai conhecer também uma mulher-limite, uma mulher que pode ser qualquer uma mas é, acima de tudo, ela própria: paranóica, intensa, irreversível.

“Lítio” fala dessas duas pessoas e de uma tentativa de suicídio. Ele e ela são desconhecidos e acabam unidos na noite fria de uma metrópole qualquer pela iminente tragédia: ele quer se matar, ela não quer deixar. Esta trama serve de pano de fundo para Patrício Jr. despejar toda a sua ironia contra assuntos que ama odiar: igreja, família, capitalismo, cultura de massa, hipocrisia, ser humano. Nada, nada sai incólume.

Revelando um submundo que pode estar na casa do vizinho, “Lìtio” também trata com secura e sarcasmo de temas como drogas, incesto, complexo de Édipo. Não se assuste caso o protagonista passe três páginas conjeturando se cheira mais cocaína ou fuma mais maconha. Não se assuste se a protagonista planejar em minúcias uma forma de transar com o próprio irmão. Não se assuste se uma mãe desavisada abrir a porta de seu apartamento para o filho que planeja jogá-la pela janela. Não se assuste.

Mas acima de tudo, este romance fala de escolhas. As pequenas, as urgentes , as corretas, as que fodem. Em seu primeiro romance, Patrício Jr. equilibra-se entre o engraçado e o trágico, entre o lirismo e a crueza, entre a gargalhada e o pranto: exatamente como os protagonistas, o autor não conhece o meio-termo das coisas. E quer que você também passe a enxergar o mundo assim.